Contar, sem Contar

Venezuela e a realidade que (não) passa

A atual crise na Venezuela é um assunto pontual na nossa atualidade noticiosa. No entanto, ainda chega muito pouca informação. Ou melhor, ainda chega muito pouca dor. Não há muitos testemunhos de quem emigra. O camaleão e a amiga decidiram dar voz ao simpático Richard. E, como era de esperar, foi um entrevista incrível. Emotiva, mas incrível.

“Não, a razão principal de eu sair de Venezuela é a segurança. Cem por cento a segurança. Eu fui ameaçado, tanto eu como a minha família, de sequestro.”

 

O Richard nasceu em 1974 e cresceu na Venezuela. Conheceu este país em diversas épocas e sabe-nos dizer, com certeza, a razão pela qual decidiu emigrar para Portugal, em 2016.
A razão principal é que eu tenho dupla nacionalidade. Toda a minha família é portuguesa, a da minha esposa também e, sempre, tanto eu como ela, tivemos dupla nacionalidade e na hora de emigrar para um país em que estás totalmente legal, tenho cartão de cidadão, tenho toda a documentação, tenho passaporte português, tenho tudo, então é muito mais fácil chegar a um país onde o único problema pode ser um pouco o idioma que eu leio, percebo tudo perfeitamente, o único problema é mesmo falar. Porque como o espanhol e o português são muito parecidos eu penso que estou a fazer o meu melhor em português, mas vou misturando alguma palavra em espanhol. Mas a razão, como te digo também, ao ser filho de portugueses, fomos sempre muito ativos, tudo que era férias era em Portugal. Foi uma alternativa, já vivi aqui também parte da minha vida, passei quase 2 anos em Portugal, já tinha experiência, já tinha noção do que era.
Como os nossos pais emigraram lá também era uma possibilidade de nós fazermos o contrário, vir cá.
Houve alguma razão, por exemplo, tinha um emprego como gestor, assessor na área do comércio. Correu alguma coisa mal?
Não, a razão principal de eu sair de Venezuela é a segurança. Cem por cento a segurança. Eu fui ameaçado, tanto eu como a minha família, de sequestro. Não era a primeira vez que tinha sido ameaçado, mas sim foi a primeira vez onde a ameaça estava sustentada em factos verídicos. Poderia ser só uma ameaça e não chegar a mais, mas a ameaça foi mesmo real, tinha muita informação minha que não era qualquer pessoa que poderia ter e foi uma razão que em nenhum momento hesitei e imediatamente que tive a ameaça, não houve dúvidas, e viemos de um dia para o outro.
Fui ameaçado em meados de dezembro, e em finais de dezembro estava em Portugal. A ameaça foi entre o dia 17 e 20, mais ou menos, de dezembro e no dia 29 estava a entrar no avião. Cheguei no dia 30.
Relaciona as razões que o fizeram emigrar com a atual situação político-social da Venezuela?
Cem por cento. É que se não fosse por isso, não tenho nada contra Portugal, mas nós na Venezuela tínhamos uma vida boa já com trabalho estávamos estáveis, tínhamos casa, trabalho, tudo e obviamente uma pessoa quando emigra é porque talvez busca melhorar uma condição de vida tanto a nível económico como a nível social. Neste caso, foi cem por cento a nível social. O nosso problema não era económico é mesmo focado à realidade que está no país por que a segurança de uma pessoa não vale nada, não tens uma segurança garantida e é impossível estar no dia-a-dia.
Uma das principais consequências da crise da Venezuela é a falta de produtos básicos. Há inclusive um estudo que evencia que 75% dos habitantes já perderam em média 8,7 kg pela escassez de alimento. Teve algum conhecido ou houve algum momento em que lhe faltou alguma coisa?
Eu vim em finais de 2016, a situação era complicada, mas não tão crítica como agora. Neste caso, tenho os meus pais que estão em Portugal, mas chegaram em Maio deste ano e agora vão para a Venezuela novamente. Tenho propriedades lá e tenho pessoal conhecido, amigos, família e sócios e ainda temos negócios, não é para mim, indiferente a situação lá.
Chega a um momento que tens dinheiro, mas não tens o que comprar. No nosso caso, que um dos negócios está ligado mesmo na área de comércio com supermercados, onde temos conhecidos e somos grandes amigos de donos de supermercado, talvez seja mais fácil para nós ter acesso a certos produtos que para outras pessoas é difícil, mas com tudo isso é muito difícil conseguir alimentos. Agora ainda pior porque o que se ganha já começa a estar complicado até para conseguir alimentos, lembra-te que a nossa moeda é o bolívar mas temos uma economia que não acompanha isso, uma economia que esta baseada a uma moeda que é o dólar.
Nós como país não produzimos nem 25% do que consumimos, então obviamente que quando isto acontece tens que cair na importação. A importação quando não é por companhia própria passa a ser negócio do governo e depois começa a estar muito limitada, então não tens acesso. Podes ter dinheiro, mas não tens o que comprar.
Não é uma história é a realidade. O que está a acontecer é: as estantes dos supermercados não têm alimentos. Quando chega um alimento ketchup, ou aceite ou óleo, enchem as prateleiras. Uma prateleira onde havia duzentos, trezentos produtos onde tinhas molhos, ketchup, mostarda, maionese, agora só tens um produto, então eles para encher a estante põem o mesmo produto de ponta a ponta.
Um negócio que tem mais de 44 anos nunca na vida tinha parado, trabalhamos 365 dias por ano e há momentos que temos estado um mês e meio sem produção porque, se não é a farinha que falta, é o fermento, é o propanato de cálcio, milhões de coisas, assim acontece com a carne, com o arroz, tudo é importado. É tudo em base do petróleo e mesmo o petróleo também tens a escassez de gasolina, também não há. É muito difícil a situação.
Também no âmbito da saúde existiram inúmeros casos de doentes que foram privados das suas medicações específicas e necessárias. No seu caso específico, ou até no seu seio familiar, chegou a passar por alguma destas dificuldades de acesso?
Diretamente não. Mas tenho a minha mãe que foi operada há cerca de três, quatro anos, de uma hérnia na cervical e teve que ser colocada uma prótese e a placa de titânico e os quatro parafusos fui que eu comprei nos Estados Unidos e mandei para a Venezuela porque não havia forma de conseguir na Venezuela. Esse é um caso, tenho um tio que acaba de ser operado, há 2 meses, também de uma hérnia, mas foi na coluna, e também tudo que foi o material para a operação tivemos que comprar fora, nos Estados Unidos. Isso acontece não só com isso. Nas redes sociais agora tudo se sabe e uma das redes sociais que nós utilizamos muito na Venezuela, aqui na Europa utiliza-se muito o facebook, e nos é o instagram e tu sempre tens publicações “preciso de medicamentos x, para minha mãe”. Isto é todos os dias.
Agora eu ter algum familiar que morreu e não consegui [medicamentos], não porque temos acessos a mandar vir de fora. E quem não tem essa possibilidade, o que que faz? Não se opera?
O que está a acontecer lá é uma questão que não percebo como continuamos no mesmo com tanta denúncia a nível internacional e não se faz nada. Eu sei que ninguém pode arranjar o problema que tem o nosso país, somos nós mesmo que temos que arranjar isso, mas chega a um momento que nem nós podemos porque para isso há órgãos internacionais, tribunais internacionais, porque quando toda a justiça do teu país está comprometida, está cega e obviamente vai para um lado, se Venezuela é um pais democrático pertence a organismos como a ONU e outros tantos, nós estamos a pedir ajuda internacional porque não estamos a conseguir internamente fazer justiça.
Acha que o mandato de Nicolás Maduro teve influência no declínio da Venezuela? Ou a situação já era grave?
Não, é assim, o problema não é Nicolás Maduro. Obviamente, também tem problemas porque pegou numa situação, continuou e piorou.
Nós tivemos um período que foi conhecido como o melhor período até ao momento do petróleo. Tivemos um período de 10 anos de abundância de petróleo. Muitos economistas da Venezuela falaram em “semear o petróleo”, que era aproveitar o boom e investi em outras coisas para quando o declínio do petróleo vir não depender só disso.
O Orçamento Nacional era baseado com um barril de petróleo a 50 e nos recebíamos 120. A pergunta que todos nós fazemos: A onde está o excedente? O excedente está nas contas deles. Isso já se sabe.
Na Venezuela a infraestrutura é a mesma dos anos 50/60 e nós não temos obras públicas então, a onde está o dinheiro? Tivemos 10 anos com um excedente no petróleo onde não se fizeram mais hospitais, faculdades, escolas, autoestradas, onde a infraestrutura pública não foi melhorada. Vais para Venezuela agora e quem esteve lá conheceu uma Venezuela próspera e ao voltar para lá está tudo igual, igual para pior porque há mais favelas, está tudo destruído, mas a infraestrutura é a mesma. Podem andar na Venezuela que conhecia porque as ruas são as mesmas. Eu lembro-me que vinha para cá e de ano em ano ou a cada dois anos, havia mudanças na infraestrutura.
Então, Chávez entra numa doença, ninguém sabe o que que aconteceu, mas ele tinha, obviamente, uma dívida que foi contraindo e não houve uma troca de governo, o que houve foi uma troca de senha de uma pessoa para a outra e esta pessoa passou a ter a mesma divida com um barril de petróleo muito inferior. Ele [Nicolás Maduro] herdou isto, mas também não tomou as medidas económicas necessárias para tentar melhorar a situação; cada medida que ele toma é ainda pior.
“Temos uma Assembleia que foi eleita e eles foram eleger outra e meteram por cima desta. Então que governo temos?”
Há uns tempos atrás, o Secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luís Almagro, declarou que (o povo americano) “não reconhecia Nicolás Maduro” como presidente da Venezuela. O Richard, enquanto cidadão e emigrante, reconhece?
Não te posso dizer se reconheço ou não, porque o que todos sabemos é que na Venezuela o processo político não é transparente, não é verdadeiro, então, não sei até que ponto isto é um governo baseado em factos.
Primeiro lugar, tu para poderes ser presidente da Venezuela tens que ser nascida lá e há dúvida de que ele pode ser colombiano, nascido na Colômbia e vindo para a Venezuela muito pequeno. Têm-se pedido milhões de vezes esclarecimentos e atas e tudo são panos de água quente a tapar e nunca se tem esclarecido nada.
Quando há denúncias internacionais e ele desconhece, não dá importância nenhuma, o que ele faz é ameaçar, porque cada vez que ele é atacado ele nunca se defende, só ameaça. Se não tens nada que temer tu vais e dás a cara.
Ele como presidente tem uma imunidade, mas se ele viaja para um país sem ser presidente ele vai preso porque ele tem processos instaurados que não está a responder. Ele tem sobrinhos que estão presos por serem traficantes, são família diretamente da esposa dele, contrataram um dos melhores advogados que havia nos Estados Unidos e não puderam fazer nada. Ninguém fala nisso. Se ele, como família, tem um sobrinho direto metido nisso, penso que em qualquer país é grave e é até, causa de um presidente ceda o seu mandado?
Todas as eleições na Venezuela têm sido manipuladas e ninguém reconhece. Temos uma Assembleia que foi eleita e eles foram eleger outra e meteram por cima desta. Então, que governo temos? Obviamente que não reconhecemos. Pedimos ajuda internacional e estamos na mesma. Não temos tido essa força.
Eu não o reconheço porque participei numas eleições e estivemos contra e nunca tivemos um resultado que acreditássemos que fosse real.
Visto que Maduro é o sucessor de Chávez, depois das manifestações de Abril de 2018 em que a população se manifestou como nunca antes se tinha visto, acha que a maioria da população deixou de acreditar neste regime e de ser chavista?
Eu penso que grande parte da população já esta a rejeitar isto há muito tempo. Eles têm atacado muito a parte pobre do país, tem semeado a ignorância, a falta de estudos, e isto é um governo de ameaça. Todas as empresas privadas que havia agora são do governo. Então o governo é o maior empregador do país, e se tu tens um empregado ameaçado onde o obrigas, até que ponto pode fazer um inquérito real da situação? Onde “há tu fizeste este inquérito então és despedido”. Estás a ser ameaçado a todo o tempo. Eu penso que há muito tempo ele tem minoria e não maioria.

Então acha que no caso de umas eleições “limpas”, a população escolheria outro caminho?

Cem por cento. Sem dúvida nenhuma.

 

“Antigamente, tu ias e conseguias tudo, e agora consigo mais produtos venezuelanos em Portugal do que lá.”

 

Acha que os  emigrantes venezuelanos se sentem abandonados pelo seu próprio país?
Eu não me sinto abandonado pelo meu país, eu sinto-me abandonado pelas pessoas que roubaram o meu país. O país não tem culpa de nada, o problema é quem está a gerir o país. Eu não me posso sentir abandonado por uma pessoa que nunca me acolheu porque sempre fomos atacados. A empresa privada, as pessoas, sempre fomos atacadas por eles.
Para mim a justiça, em algum momento, vai chegar. Assim como estou eu, muitas pessoas deixaram a casa, negócios, uma vida inteira. Eu tenho 44 anos e deixei 44 anos da minha vida lá. Eu tinha um trabalho estável. É difícil conhecer uma economia, um sítio, ter contactos, e chegar a um sítio onde não conheces ninguém e começar do zero.
Já me sentia abandonado antes de vir para cá, há muito tempo antes, porque nós passamos a ser os inimigos. A parte privada do país ou tudo contra o governo passou a ser o inimigo. Isso é impossível. Se tu tens liberdade de expressão e se é um país democrático, assim como há liberdade de culto em religiões. Posso acreditar no meu sem ter que falar mal do teu, posso não estar a favor, mas tenho direito a criticar o que está mal. Mas lá não podes criticar nada. Lá a culpa de que não há alimentos é da parte privada. (Risos) Não sei como, nem quando, nem onde.
Antigamente, tu entravas num supermercado e a fila era para pagar e agora a fila é para entrar ou para conseguir um produto. Antigamente, tu ias e conseguias tudo, e agora consigo mais produtos venezuelanos em Portugal do que lá. Consigo um produto cem por cento venezuelano e lá não consigo. São fábricas que tiveram que sair da Venezuela e estão a fornecer alimentos a onde estão os emigrantes.
Neste seu “regresso” a Portugal, alguma vez sentiu, ou a sua família, sentiram discriminação?
Não. Eu não. A verdade é que tenho tido muita sorte e senti mais discriminação aqui em Portugal no ano de 98 quando não me deram equivalência ao título (de engenheiro) porque havia muitos engenheiros portugueses a serem formados.
Mas não, não posso dizer que tenha sentido, porque tenho sido muito bem acolhido.
Agora, é como tudo na vida, emigrar não é fácil. Há sempre uma, outra pessoa que às vezes não tem a melhor disposição, porque não dominamos o idioma a cem por cento.
Conheço gente que tem tido problemas de adaptação. Emigrar não é fácil.
Se tu não sais com a ideia de que vais começar do zero, tu tens que te mentalizar de uma coisa, cada país é diferente. Tu não podes emigrar para Portugal pensando que tem de ser igual à Venezuela. Venezuela é a Venezuela. Portugal é Portugal.
Cada país tem o seu encanto. Eu adoro Portugal. Só penso que o português tem que agradecer. E não agradece. É uma coisa que nós temos, mas que vocês não dão valor, porque é um direito que vocês têm. E a segurança. Portugal foi há pouco tempo eleito o quarto país mais seguro do mundo. Isso é um privilégio, poder criar os meus filhos aqui.

 

Falando agora dos seus filhos. Como é que um pai lhes explica que têm de abandonar o seu país?
Não faz falta explicar. É tudo muito fácil. Os meus filhos tiveram a sorte de poder viajar todos os anos e sair da Venezuela. Uma dessas viagens era quase sempre Portugal. Eles já estavam familiarizados com o país, com a linguagem, com uma vida aqui. Tem toda a cultura da Venezuela e tem toda a cultura portuguesa, também, no seu dia a dia.
Depois disso é muito fácil explicar a um filho que tem 11 anos, o maior, a menor fazia 10, que num país onde se sai de casa e não pode ter um vidro do carro aberto, onde nunca se caminhava em nenhum sítio, não se ia a um centro comercial… era muito difícil. Não iam a um parque, dificilmente, íamos a uma praia. Eles viajam para outro país que tem liberdade, sempre supervisionada, mas permites que eles se afastem de ti, uma criança com 10 ou 9 anos já percebe o que vive. E eles viviam em segurança na Venezuela. E era algo que eles … viviam e sofriam igual a nós. Eles viviam numa bolha. Não era a realidade do país. Estavam numa parte privilegiada. Nós vivíamos num condomínio fechado.
Estranham os seus amigos? Estranham. Estranham as sua coisas na Venezuela? Obviamente que estranham. Agora estranham viver lá? Não. Aqui têm mais liberdade.
Neste momento eles têm futuro cá. E lá não.
E depois não é só isso. Eles não podem estranhar o que não vão ter porque metade dos amigos deles também não estão lá.

 

“Eu nunca penso na Venezuela por ter voltado para cá”

A realidade também se altera para eles?
Totalmente.
Falando daquilo que a comunicação social transmite sobre o seu país. Acha que fazem com que as coisas pareçam menos graves, ocultam informação, ou mostram a realidade?
Lá, na Venezuela? Internamente?
Sim.
Não existe.
Os canais que não foram fechados, foram ameaçados, ou foram adquiridos por pessoas ligadas aos grupos que apoiam este governo.
Então, existe? Não. Estas manifestações que havia, lá não existem. Não é transmitido. Não há livre de opinião sobre o governo.
É difícil. Alguma coisa se vai filtrando, mas é difícil. Não se sabe a situação atual. Um país com 100 mortos durante um fim de semana, é um dos mais violentos. E isso não vem nas notícias.
E aqui?
E aqui não vinha, até há muito pouco tempo. Agora é que estamos num acordar internacional.
Penso que já se têm ativado muitos alarmes para que o país fosse julgado internacionalmente. Coisa que não foi feita. Portugal também já se tem manifestado contra o que está a acontecer e ultimamente, o que tem acontecido nos Estados Unidos, na ONU, países como o Uruguai, a Argentina, Equador, Colômbia e o Brasil já se começa falar. São países vizinhos e que sofrem com o que está a acontecer na Venezuela.
Richard, tinha um emprego fixo na Venezuela. Tinha tudo certinho, voltou para Portugal, está a dar aulas de Paddel, neste seu novo projeto. O seu nível de vida alterou-se muito? Ou não foi uma mudança assim tão abrupta?
(silêncio)
É difícil responder. Porque… o nível de vida entre um país e outro é totalmente diferente.
Quando estás – e não vou falar de abundância porque não se trata de abundância ou de passar necessidades – mas quando tens um emprego pelo qual lutaste toda a vida, onde te preparaste, onde tu já alcançaste, porque é assim eu comecei a trabalhar a uma idade tardia. Comecei a trabalhar com 23, 24 anos porque enquanto me preparei tive a sorte de os meus pais me terem ajudado e eu tive forma de estudar sem ter que trabalhar. Também, o meu estudo não permitia. Eu formei-me com 23 anos e entre os 23 e os 24 foi quando comecei a trabalhar. A partir daí comecei pouco a pouco, mas de forma independente, ter empresa própria, casa própria. Logrei uma independência.
Obviamente logrei um nível social que para mim era bom. Trabalhava muito mas tinha a recompensa. O que é que acontece, tu poupas e … a diferença que há com outros países é quando tu vez que o teu país está a entrar numa fase má, tu fazes planos de contingência. E um dos planos de contingência que eu tive, foi poupar alguma coisa. Foi o que me permitiu dar o passo com tranquilidade de vir cá e ter alguma facilidade de voltar. Não recebo o mesmo que recebia lá. Nem chego a mais mil do que recebia lá, mas também o estilo de vida num país tropical não pode ser igual ao estilo de um país com quatro estações. Aqui há outros privilégios.
Tenho um nível de vida estável. Normal. Ainda não ganho para manter-me a 100%, ainda dependo de algumas coisas que tenho na Venezuela. De facto, eu não estou a totalmente em Portugal. Os meus filhos e a minha mulher sim. Eu ainda tenho a minha residência na Venezuela porque vou e venho.
É diferente. Não posso dizer que é melhor, que é pior… Não podemos comparar maças e pêras. É diferente.
Mas se fosse pelo que recebo cá, não podia fazer o nível de vida que fazia lá. Poupei e guardei alguma coisa para tentar arrancar com uma vida cá, devido à situação que eu tinha lá. Aqui ninguém poupa para ter uma emergência e fugir. Aqui poupas para um apartamento, ou para ter um negócio, para a velhice.
Mas antecipava tudo isso, o ter que sair de lá?
Claro. Claro.
Se eu não tivesse vindo em Dezembro de 2016 por ameaça, teria vindo nas férias de verão de 2017 para Portugal. Ou para os Estados Unidos. Estava num sorteio de passaportes. Não, nunca foi opção para mim ir para os Estados Unidos. Fiz muitos negócios lá. Mas o meu único plano se saísse da Venezuela era Portugal.
Muito provavelmente, se não tivesse acontecido esta situação e toda a crise na Venezuela não teria saído do seu país, mas pensa em voltar? Pensa-se na Venezuela, quando já se está cá?
Eu nunca penso na Venezuela por ter voltado para cá. É assim, uma das coisas que se tem de fazer quando se emigra é… o teu novo país é o país onde estás a chegar. Se não te entregas a cem por cento nunca vais ter uma adaptação. Eu tenho gente que emigrou e que está na ilha da Madeira, no norte do país, em Lisboa, e que estranham muito. Os filhos estranham, eles estranham.
Eu não estranho. Eu estou feliz aqui. De verdade. Eu gosto. Estou bem e sei que aqui tenho futuro.
Se tenciono voltar para a Venezuela? Não sei. Se ficasse tudo bem… podia ser.
Não estou a pensar, neste momento, ir lá. E se tiver que ir nunca mais me desprendo do que tenho cá.
Agora, que os meus filhos saiam de Portugal, para voltar à Venezuela? Não vou meter as mãos no fogo, mas estou quase 99% que não saem. Não voltam. Eu poderia voltar. Estar tempo lá e tempo cá. Só na Venezuela não, volto porque sempre gostei de Portugal.
Agora, respondendo como os emigrantes que estão fora da Venezuela, que saíram com urgência, digo-te com 95% de certeza que voltam.

 

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