Crónicas

As redes da ignorância consentida

Há quem descreva o século vinte e um como a era dos smartphones, Netflix e afins. Uma variedade de serviços e funcionalidades tecnológicas que, supostamente, maximizaram a cultura geral da sociedade. Essa foi a primeira fake new. A abertura de todos esses canais de informação só veio comprovar uma coisa: não foi a era da evolução, diga-se antes, o tempo da ignorância consentida.

Ouvi uma vez que o homem é tolo, porque nunca tinha percebido o motivo de ter duas orelhas e só uma boca. O futuro veio a legitima-lo. Podemos até trocar as orelhas pelos olhos, o homem continua tolo. Tolo e desinformado. A verdade banalizou-se e as notícias e as informações foram-se perdendo por entre todos estes múltiplos canais de comunicação. Roger Ailes defendia que “a verdade é qualquer coisa em que as pessoas acreditem” e hoje acredita-se em tudo e em todos.

Atualmente, cada um de nós pode, deliberadamente – ou dizendo melhor, inconscientemente – difundir um conteúdo. Meio para tal é o que não falta. Facebook. Instagram. Tumblr. Twitter. São mil e uma as formas de expandir a mediocridade. Não há uma “alfândega da verdade”, só migrantes de informação disparatada que entram diariamente pelas nossas vidas.

Hoje, todos temos uma opinião. Todos temos algo a dizer sobre um determinado acontecimento. É certo, uma vez que vivemos em democracia. É errado porque o conhecimento (ou a falta dele) é uma arma muito perigosa. É erradamente manuseada por qualquer um. Esta história – que já passa mais a estória – das redes sociais e dos blogs veio condenar o conceito da verdade. Todos temos direito ter a nossa continha no face para jogar candy crush, o que está mal é a “meia dúzia” de pessoas que por intenção pessoal espalha um determinado boato.

E a Entidade Reguladora da Comunicação? Estamos a falar de um meio de comunicação. Se calhar dever-se-ia preocupar mais com isto e deixar a Super Nanny educar as crianças. Não há barreiras. Não á uma triagem de conteúdo. Só a direitos.

O pior de tudo é que ninguém se consciencializa do buraco para que nos estamos a atirar. É ridículo. E desrespeitoso. Então e os senhores jornalistas? Em vez de andar tudo preocupado a saber qual é o ordenado da Cristina na SIC, que tal começar a defender os anos que andaram a queimar as pestanas para estar numa posição meritória de quem defende a verdade?

Ainda há rigor em certas publicações. É inegável. Mas isso ninguém lê porque é uma “seca”. E esta bola de neve que vai aumentado a uma taxa irrisória tem vindo a espelhar a ignorância do público. É uma apatia surreal. Está implantada uma realidade assustadora, assente sobre um conjunto de mentiras vulgares, sobre as quais as pessoas nem se quer se questionam. É aterrador quando questionados um jovem sobre a sua orientação política e nem se quer sabe distinguir direita de esquerda. É um burlesco mundo onde Bolsonaro é uma receita de massa italiana, ou uma nova coleção de moda.

Só se reconhece a ditadura quando está escrita a caps lock. Já não é ridículo. É inadmissível.

Se assim for, a chegada de todos estes canais de difusão de informação, só veio standartizar a idiotice.

Podem até alegar que tudo isto não passa de um ataque às novas gerações e ao progresso. Não é. E nunca pode ser entendido por tal. Nem que não seja pelo facto de as bibliotecas estarem às moscas, pelos jornais ficarem a ganhar pó nas papelarias. Nos tempos que correm, qualquer alimento é até cancerisna porque houve alguém que viu na página do amigo. Hoje faz mal amanha é o mais saudável. A informação está assim, inconstante. É o estilo do “como der mais jeito”.

De facto, qualquer um pode fazer o planeamento daquilo que é, ou não, noticia. Todos somos gatekeepers e todos fazemos agenda setting. A atualidade noticiosa é assim. É uma selva, com duas, ou três espécies, em vias de extinção, que representam a verdade e o rigor.

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