Crónicas

Os (novos) livros de 40 minutos

Toda a gente vibra com a passagem de ano, com os aniversários. Com a compra de um carro novo. Tudo o que é recente desperta, geralmente, um interesse positivo à sociedade. É uma mudança constante. Tem benefícios e tem também o seu lado mais perverso. Mas se há coisa que me deixa, puramente, aborrecido neste ritmo de evolução é a incapacidade de compreensão de algumas gerações mais antigas.

Há uma célebre frase que me tira do sério: “No meu tempo é que era bom”. É aplicada em múltiplos casos. No contexto das reformas é até justo. Dos vencimentos também. Porém, não é do tempo das vacas gordas que o futuro vive. Agora até essas são fit e andam escléticas. Onde quero chegar é aos livros. Aos jornais. Às revistas. Enfim, a todo o universo da imprensa e do papel.

Hoje em dia está na moda dizer que os putos não sabem nada, porque não lêem, como antigamente. Não lêem. É um facto e uma outra discussão que daria pano para mangas, mas uma coisa não está relacionado com outra. A cultura e o conhecimento não estão directamente associados aos livros. Se assim fosse, pela velha máxima de que “uma imagem vale mais do que mil palavras, bem estavam os geeks das comics!

O que a malta do E depois do adeus se esquece é que há muitos outros mecanismos e produtos que potencializam a informação. A instrução não está só no papel. Hoje há uma ferramenta que veio concorrer com a biblioteca, o Netflix. Que para quem não sabe tem lá muita coisa. Tem história. Tem ciência. Tem política. Tem filosofia. Tem mil uma matérias repartidas pela infinidade de séries que apresenta, porque essas sim, são os novos livros de 40 minutos. E que não se abane a cabeça em jeito de discórdia, pois todas as semelhanças comprovam esta analogia. Tanto os livros como as series têm um enredo. Têm personagens. Levam tempo até chegar ao fim (consoante quem os lê ou vê). Têm altos e baixos. Têm dias que ninguém lhes pega, ou ocasiões em que se faz maratona para terminar.

O que não se pode é pedir a quem nasce na era digital que sinta a folha impressa da mesma forma. Os tempos são só isso. Tempos. Mudam. É contestável? É. O papel está em extinção? Está. Mas no final as histórias continuam a existir. Se calhar, chegam é de uma forma mais confortável e prática à audiência.

Já sei que ainda vai ser atirada a velha lengalenga do “mas isso só faz mal à vista”. Pois de facto faz, mas o papel que se extrai do ambiente também faz mal às árvores. Tudo tem os seus senãos. Não se chame é inculto a quem não o é.

Sempre me disseram que temos a obrigação de respeitar os mais velhos. Deveria ser mútua, no que toca a cultura. Respeitar passa por perceber e aceitar. As pessoas, os miúdos, ainda são cultos. O papel – infelizmente – já não lhes diz o mesmo, mas o saber está lá. Não anda em Brexit. E quem apoio este conceito castrador anda mal informado. Não lê assim tanto quanto julga. Deixou até passar o George Orwell e O que É Fascismo? Corroborar a ideologia de que o mundo só se vê pelas palavras bonitas do Eça, ou do Pessoa é cair na tirania. E para isso já temos um exemplo bem Maduro. Deixem lá o Putin e Xi Jinping fazer o papel de ditadores. Nós vamos fazendo o nosso. Lendo, ou vendo. Tentando ser cultos.

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