Crónicas

Só sai quem quer

Eu sei que eu sou muito difícil. Complico. Dou voltas e voltas, não deixo entrar, facilmente, qualquer pessoa. Pareço frio, muitas vezes. Não sou a melhor pessoa. Não me abro prontamente. Toco, por momentos, o ceticismo. Mas há uma coisa em que sei que não falho, a lealdade. Quem está na minha vida, está mesmo. Quem fica, fica mesmo. Quem entra, entra para ficar – ou pelo menos é o que idealizo, tento e acredito.

Mesmo não estando sempre fisicamente. Mesmo não conseguindo comparecer a tudo. Apesar de tudo isso, acho que não falho (ou no mínimo de uma forma grave). Sei quando é realmente preciso. Sei quando sou realmente preciso. E quem me rodeia não tem de procurar. Farejo-os. Sinto-os.  Contudo há uma coisa que me custa. Cobrarem-me o que não dou, ou o que não me é obrigatório dar. Sei que dou mesmo não dando, pois mesmo não estando em tudo, estarei sempre no essencial. Abomino as exigências emocionais perversas. Não são os momentos menos bonitos que definem a força. São a forma como ultrapassamos as insignificâncias. E nessa minha visão sou muito ríspido, para quem não a aceita. Corto. Completamente. Podem até chamar-me radicalista, todavia sei que quem gosta compreende, respeita e, sobretudo, aceita.
Mas também sou humano. E tenho os meus defeitos. Para quem entra e não quer estar, sou o primeiro a abrir a porta. Não tolero lugares preciosos ocupados. Sou impaciente. Intolerante. Exigente. Tanto sou de desculpa fácil como sem margem para erro. Reconheço que não é fácil lidar com este meu lado mais rígido. Mas quem fica é porque gosta. E o gostar, o amor, é o que me faz sempre repensar nestas escolhas. Em quem me acompanha.

Há uns tempos um grande amigo falou-me de uma exemplo muito curioso e que vou leva-lo para a vida: a confiança é como um fósforo. Depois de apagar, podemos raspá-lo na lixa as vezes que quisermos. São tentativas falhadas. Constantemente. É um processo sem repetição. Único. Só dura aquele momento.

É difícil imaginar a confiança assim? É, claro que é. Mais do que difícil é triste. Não só pela longo processo de “deixar aquele lugar à disposição” mas pela tentativa de nos perdoarmos a nós próprios tal erro. E para alguém que lida mal com a derrota, é ainda mais complicado.

E há uma certeza que podemos ter sempre presente: a decepção muda qualquer pessoa. Porém há outra noção que faço questão de manter: levo tempo a preencher esses lugares (ditos “importantes”) mas sou muito rápido a desocupa-los, quando vejo que são erradamente tomados. Escusado será dizer que aquela lengalenga de “as pedras do meu caminho apanho-as todas e um dia vou construir um castelo”… push… nada disso. Quanto, muito um muro, bem alto. Suficientemente grande para que ninguém consiga ver o que faço no meu interior, pois o que ninguém sabe, não se estraga (ou então nos dias em que o meu sentido de humor estiver mais apurado uso-as para mandar uma ou outra pedrada a uns telhados de vidro que muito opinião). E nesse meu interior do muro só está mesmo quem eu quero. Só o partilho com quem eu quero. Desculpem o egoísmo mas é o meu pedaço… e dos que quiserem ser meus. Sempre. Só entra quem eu quero, mas sai sempre quem quiser.

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