Crónicas

A queda da caixinha mágica

Ainda sou do tempo dos serões de domingo, em que o sofá era disputado por toda a família. Enfim, nessa altura “domingava-se”, verdadeiramente. Reunião-se todos, em torno da caixinha mágica. Todos ansiavam o programa da noite. O do horário nobre. 

Ora fosse um concurso de música, ou mesmo um formato de danças, havia assiduamente um aglomerado de pessoas que vidrava na televisão.

O domingo ficou, a televisão também. O ajuntamento acabou. Individualizou-se. Hoje, os domingos à noite são particulares. Cada um está com o seu telemóvel, ou tablet – no caso dos mais pitosgas – a vaguear pelo vasto mundo digital. A RTP perdeu para o Facebook, a SIC foi abafada pelo YouTube e a TVI foi trocada pelo Instagram. E por muito que as mãos estejam ocupadas a manusear todos estes equipamentos vanguardistas, a mente fica cada vez mais vazia. Mas, enfim, isso seria tema para outra discussão. Daria pano para mangas, como ainda dizem os poucos que guardam lugar em frente ao televisor.

Os tempos mudaram. É indiscutível. Já o Bob Dylan o tinha dito e o panorama televisivo veio confirma-lo. Aquele ecrã utópico que em tempos imperou nas conservadoras salas de jantar caiu. Há quem lhe chame – incorretamente –  decadência abrupta. Diga-se antes, que é um meio em transformação. É um jogo cujas regras mudaram. Está em constante alteração. Toda esta modificação deve-se a um fator único: o público.

Nesta mudança toda, os debates que dividiam opiniões e juntavam interesses acabaram por cair. Os talk-shows estão às moscas. Os programas de entrevistas; esses, coitados, ainda vão sobrevivendo, quando aparece um, ou outro Youtuber ou Jogador da bola mais conhecidos. Esta panóplia de formatos, de passado sucesso, estão a sofrer uma obsolescência surreal.  Está a ser muito duro. E o pior é que a audiência não se apercebe deste movimento. O termo certo é mesmo esse, movimento. Estamos perante uma migração, massiva, dos espectadores, da televisão para os inúmeros canais digitais. 

E por muito que se queira defender a televisão, o certo é que o as redes sociais e a plataformas online encetam um novo paradigma. É a era do conteúdo selecionado. Não há um alinhamento predefinido. Não há qualquer tipo de imposições. Aquilo que se quer consumir está a distancia de um click. É esta facilidade aliada à especificidade subjetiva que fez tombar a televisão. Os tempos áureos dos generalistas já lá vão. Ainda há aí uma, ou outra Cristina que vão prendendo o público. Um The Voice ou um Festival da Canção que fazem disparar as audiências, mas esses são os oásis no deserto.

Estamos num mundo novo. Um universo com várias pistas. Vários caminhos. Televisão. Rádio. Redes Sociais. Blogs. Vlogs. Um conjunto de múltiplas vozes e de espaços que (con)correm lado a lado. Vão bebendo uns aos outros. Vão aprendendo. Reformulando e adaptando. Uns perdem hoje, para que outros ganhem no próximo amanhã. É um tempo incerto. Ainda se vai descobrindo o que se vai criando. O melhor é estar a par de todos eles. Pelo menos até surgir mais um novo meio que vai deixar tudo agarrado algo que nem o diabo imagina. 

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