Crónicas

Lugar (in)certo

Estou perto dos vinte e sinceramente não sinto espanto pela perversidade humana. É triste. É mau. É aflitivo. Já não me espanta a desumanidade do homem, nem a negligência. Choca-me! Mexe comigo. Isso sim, mas essa é lenha para outra fogueira… 

Onde quero mesmo chegar é à falta de compaixão. Ao desprezo e desrespeito pelo próximo – e obviamente do seu respetivo espaço.
Os meus pais nunca me encheram de princípios morais ou afins. Eram de os praticar. De os mostrar. Era uma espécie de autopsia ao ato, faziam-nos ver o que é o outro, do que precisa, quando precisa, mas sobretudo de quando não precisa. E se há frase que lhes guardo é esta: “A tua liberdade acaba quando entras no espaço dos outros”. Não se referiam ao espaço físico. E mesmo tendo começado a ouvir isto em tenra idade sempre percebi o contexto. 

Não sou melhor que ninguém. Não estou a querer dizer que os meus pais foram ou são melhores educadores do que ninguém. Nem estou muito menos a apelar à condenação social – pois sei que a seguir vou ouvir a típica máxima: “já estás a dar porrada ao mundo”. Enfim, as minha reflexões nunca são muito consensuais e fogem à ideia predefinida que as pessoas têm de um miúdo tímido e pacífico. Pergunto só se ainda pensamos no espaço do outro? Inclusive, como já referi, sou sossegado. Gosto do meu canto. Respeito o mundo. Questiono-me só se o resto do mundo respeita o meu canto, da mesma forma.

Para facilitar esta análise podemos restringir ainda mais o nosso universo. Até porque aqui não há heróis e todos sabemos que, nos dias que correm, salvar o mundo é algo utópico. 

Quem nos é mais próximos respeita o nosso espaço? A nossa liberdade? As nossas convicções e perspectivas, ideologias e crenças? É surreal. Se formos ao cerne da questão, a definição de espaço distende-se num espectro tão vasto e multidimensional.

E quando penso nisso, assim naqueles dias em que o cérebro tem mais força do que o coração, vejo que são muito poucos os indivíduos que não beliscam a nossa liberdade. Alias, estão mais próximas de a invadir as pessoas que nos pertencem. Família. Amigos. Conhecidos. É-lhes mais fácil. Pode até nem ser intencional mas acontece. Todos nós já o sentimos, quem disser o contrário só se engana a si mesmo. A proximidade entre duas pessoas é uma linha muito ténue. É um lugar (in)certo. Quer queiramos quer não, a nossa postura psicológica é algo muito pessoal e individual. É como o DNA. É única. Por muito que se assemelhem nunca haverá dois seres humanos com um raciocínio ou uma opinião que seja rigorosamente igual. Não a cem por cento.

E é nessas ligeiras divergências que, por vezes, inconscientemente, adentramos os ditos “cantos”. Tudo gira em torno da proximidade. 

Porém, é bom relembrar que isto é apenas um ângulo de visão. Há o reverso da moeda. A proximidade espelha – paradoxalmente – o oposto do conceito de “canto”. Simboliza a força de uma determinada relação. E isso é amor, amizade, ou o que cada um quiser que seja. 

São só pontos de vista. Este é um dos meus, um de muitos. Talvez seja uma abordagem cética e complexo, de um rapaz imperturbável, de um camaleão. E quando penso nisto tudo penso também que devia ter ido para psicologia ou sociologia. Ou então que devia pensar menos…

Anúncios

2 opiniões sobre “Lugar (in)certo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s