Crónicas

Julgamento

A primeira definição do verbo “julgar”, segundo o dicionário, enuncia “proceder ao exame da causa de”. Seguem-se outras tantas semelhantes como o “decidir”, “sentenciar”, “formar um juízo acerca de” … “crer, supor”. São dezenas de termos semelhantes que pressupõe a formulação de uma conjectura, em torno de um determinado sujeito.

Hoje é dia do Miguel dar pancada no mundo… como costumam dizer. E hoje, é dia de falar disto. Da condenação. Da social, da pessoal, da interpessoal. E mais do que isso, da forma como é praticada. Isso sim, é preocupante, pois vivemos numa era em que cada vez mais a condenação ao próximo se assemelha à caixa de velocidades de um carro. Esta é a parte em que já ficou tudo a pensar: “eishh que grande galo…” foi comparar duas coisas que não têm nada a ver. Calma! foi propositado. E vou já simplificar – talvez se tivesse escrito ter a haver com h ninguém daria por ela. No século XXI já só há um tipo de condenação, que em termos de ação é quase tão imediata e involuntária como a condução dos automóveis que proliferam no mercado, os de caixa automática.

A condenação é uma condição inata ao ser humano. Todos condenamos. Quer no presente, quer no passado. Eu inclusive e quem está a ler também já o fez, por mais leve que tenha sido. O preocupante é que nos dias que correm, a crítica, o pressuposto ou a presunção são as primeiras a sair pela boca. E quando ilustro este exemplo nos carros é porque já não vejo necessidade de se perder tempo de passar de primeira para segunda. É automático. O carro e a nossa (in)consciência fazem-no espontaneamente. Muitas das vezes nem se quer se formula uma crítica justa, ou mesmo necessária. Sai por reflexo. E o meu medo é que muitas das pessoas que conduzem automóveis de caixa automática já não sejam capazes de voltar ao sistema manual.

Escrevo sobre isto hoje, uma vez que considero ser a altura oportuna. Não preciso de mandar recados. Não preciso de dizer nomes. Não quero que interpretem este post com um tom prepotente, ou de alguém que se acha a um nível superior. É somente um desabafo. Uma história, também um pouco minha, um testemunho para o mundo que, infelizmente, não consigo mudar.

Quem priva comigo diariamente, ou até regularmente (que, diga-se de passagem, ultimamente têm sido muito poucos porque ando mais bicho do buraco) já viu. Já percebeu a minha mudança. Física e … emocional. Perdi muito peso. E não estou a cingir-me ao físico. Esse, talvez, até tenha sido o menor, mas é a ele que quero chegar.

Não gostava de balanças… não me pesava. Evitava falar disso. Limitava-me a querer ser perfeito sem nada fazer. Percebi que o perfeito não existe. Mesmo depois da mudança. Seja ela qual for. Não há perfeição. Mas há muita dor e esforço para tentar alcançar a noção de perfeição. Voltando aos tempos em que “uns quilinhos a mais” eram o eufemismo perfeito para me descrever. Ouvia algumas coisas. Poucas. Havia sempre uma pessoa, ou outra, que lá atirava a celebre apreciação. Confesso que nunca me afetou muito. Mesmo. Não me era indiferente mas também se fosse realmente impactante já teria mudado há muito tempo. Reduzia tudo a meros comentários, por mais pejorativos que fossem. A única coisa que não reduzia era as bolachas e aos chocolates…

Aproximavam-se os vinte, era ainda abril. Pressentia já uma mudança, sem que a idealizasse. Não sei se foi por prever o encetar de um novo ciclo, ou só o peso da idade que já me ocupa os dedos todos do corpo. Resumidamente… mudei. 

Sabem o que não mudou? As críticas. As boas. As más. As ofensivas. Isso continua tudo igual. Pior até, se partir para o campo do peso. Nunca achei correto falar desse assunto com as pessoas. Cada um pensa para si. Exteriorizar algo que a própria pessoa tem plena consciência nunca me pareceu uma ação feliz. Até porque não acrescenta nada de novo. Porém já dizia Rousseau: “Geralmente aqueles que sabem pouco falam muito e aqueles que sabem muito falam pouco”. Não era por ser mais gordo que as opiniões me magoavam. Não é por estar mais magro que me magoam. Posso até pesar mais 40 quilos, amanhã. Posso até ficar muito mais definido e tonificado. Sei que vou continuar a achá-las desnecessárias. E muito sinceramente, dói tanto para os gordos, como para os magros. Escusada é a cantiga de “sortudos dos magros que ainda ficam chateados quando lhe dizem que estão magros…”. Se não dói, atinge e isso é suficiente porque já invadimos o espaço do outro.

Eu mudei. Ouvi muita coisa. Doeu-me um pouco mais pela forma como me foram ditas as coisas e por quem foram ditas. Mas a minha resposta é e será sempre a mesma. A do silêncio. A de quem não tem não a acrescentar. A de quem se sente – e está – bem. E deixando as tretas do querer mal, e nas inimizades, das invejas, dos mil e um paleios para trás, só me fica o silêncio e a abstração. Já não afetam. Já não passam a barreira da importância. São vulgares e medíocres pensamentos. Só por um motivo. Quem passa por um saco plástico na rua e não o apanha, seguindo o seu caminho, não pode depois vir afirmar-se ecologista. Quem não esteve lá para corrigir o miúdo que comia pacotes e pacotes de bolachas no sofá, que exagerava nos croissants de chocolate e nos milka, não tem agora o direito de lhe vir apontar o dedo, quando decidiu ser melhor. 

Mas a mudança é boa. Sei quem esteve nela. Sei sobretudo quem não esteve. Sei o que ouvi e vi. De todos os lados e frentes. Família, amigos, conhecidos e mesmo quem julgava conhecer. Disseram muita coisa. Não me chegou à importância. Não me fez mover. Não me movi por isso. Movi-me sim por mim e pelo que queria alcançar. Era eu e a minha luta. 

Esta é uma parte da minha história. Uma das pequenas grandes vitórias que nunca tinha conseguido superar. Só com lágrimas e suor. Literalmente.

Agora… agora que as coisas estão como sempre deviam estar, só retiro uma coisa. Duas, aliás. Primeira é que todos os que ficaram para trás – não que os deixasse, mas porque se deixaram ficar – levam apenas um ideia ou versão de mim que já não está cá.

E depois aprendi ainda uma máxima muito mais importante. Ter menos 5, 10 ou mesmo 20 quilos não fez mudar assim tanto. Mudou tudo, não mudando nada. Isto é só o que quero passar. É o que retenho de valioso. Não alcancei a perfeição. É impossível. Continuarei a lutar por ela no entanto. Agora, estou apenas ciente de que as pessoas só são bonitas, ou melhor, visualmente atrativas, quando quem está a sua volta tem os olhos bem abertos e elas… a boca bem fechada. 

Não sou melhor do que ninguém. Não sou exemplo. Sou o que sinto, por quem sinto e pelo que sinto. E somente por esses motivos a minha boca não se fechará, pois para o resto é o mais cerrado cofre. 

Isto é só um fragmento. Não precisava de o partilhar. Há quem julgue ser uma mera exposição, um hastear da bandeira. Nada disso. Só um trecho de uma luta muito minha e que não foi fácil. Por isso a demora deste post, para que pudesse medir bem as palavras, gerir corretamente as emoções, contando tudo isto da forma certa. 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s