Crónicas

A minha editora

Há apenas uma pessoa que lê, previamente, os meus posts. Só uma. Lê-os sempre. É um hábito que tenho antes de os publicar. Olha-os com olhos de ver, com olhos de saber. Olha-os com o coração. E é claro que é uma pessoa especial. É a minha editora. Corrige. Acrescenta. Dá-me na cabeça por dar pancada no mundo. Às vezes acha que sou excessivamente acutilante, outras fica somente com os olhos a brilhar. 

E queria tanto que a conhecessem. Mas é uma capacidade que não tenho, porque é minha mãe. Não será com, ou para alguém, como será para mim. Não é possível, a todos níveis. Não dá mesmo. Vou apenas tentar passar um pouquinho do que ela representa.

Sempre fui (e sou) menino da mamã. Digo-o, assumo e vivo, orgulhosamente, bem com isso. Nunca o escondi, nem será agora que o vou começar a fazer. Sou mãeodependente. Não consigo viver sem ela. E já sei que elas (as mães) não são eternas, mas também sou consciente de que sem mãe não se vive, sobrevive-se. Ou tenta-se. Sobre isso, felizmente, não posso opinar com certezas. 

Não me falha nunca. Nunca. Mesmo quando todos os outros dão um passo a trás. Não houve um único dia em que me tenha desapontado. Talvez há uns bons anos atrás tenha ficado – erradamente – desiludido quando não me deu um LEGO, ou um outro brinquedo no Toysrus. E ainda bem que não mo deu. Fez-me crescer com isso, com a responsabilidade de perceber o valor das coisas. Aliás, a vida toda, teve mecanismos educacionais que, na altura, mexiam comigo e com o meu irmão. Compensava-nos quando vacilávamos. Quando falhávamos. Quando não estávamos à altura da circunstância vinham sempre as melhores prendas. O mundo todo a julgava irresponsável por isso – certamente muitos ainda a julgam. O que eu e o Rómulo viemos, mais tarde, a perceber é que a prenda não era na verdade uma prenda. Não era uma recompensa. Era um símbolo. Sabíamos que não merecíamos determinada oferta e isso deixava-nos tão desiludidos que nos fazia sempre melhorar. Corresponder, esta sim talvez seja a melhor palavra.

Havia uma coisa, que ainda hoje se mantém, uma coisa que ela sempre nos deu de mão beijada. Não, não me refiro ao amor, pois esse é o típico termo associado às declarações e mensagens maternais. Esse é tão obvio que já nem lá vou bater à porta. 

Liberdade, essa sim. Foi o seu maior feito. O testemunho mais valioso que me deixa. Sempre nos concedeu uma liberdade e autonomia promissora. Mesmo quando isso a magoava. Mesmo quando trocava o calor da minha casa pela da madrinha. Mesmo quando ia para casa da tia, em vez de ficar com ela. Sei que lhe doeu ter-lhe roubado esses meus bocadinhos de infância. Privei-a disso e muito mais. Nunca me cobrou. Esse deve ser o preço de ser mãe, julgou eu, que nada disto sei… Só tento perceber a imensidão deste amor que não é “vendido” ao metro, ou ao quilo. Deixou-nos ser livres para escolher. Das próprias asas arrancou penas para que nós pudéssemos voar. Mais alto, mais longe. Passar barreiras. Ir além. 

E sabem o que veio depois? “O bom filho a casa torna”. Mesmo depois de conhecer o mundo, só há um local ao qual queremos voltar. É uma carência perpétua. Nem é bem um local, nem uma coisa, é uma essência, algo inexplicável, a mãe.

Algo que estou a tentar descrever há pelo menos 40 linhas e ainda não consegui. É uma imensidão tão grande de sentimentos que se tornam impossível de os reduzir a palavras.

Percebo agora o motivo pelo qual todos os filhos dizem que a sua mãe é a melhor do mundo. Eu faço o mesmo. E não é uma disputa. É apenas uma mera tentativa de quantificar o quanto delas gostamos. E tem de ser assim. Só pode. Se os filhos são a gasolina que desperta e move o motor das mães, porque não o podem fazer? É certo que é uma verdade relativa e não consensual. Cada um vê a sua mãe como a melhor. Assim, esta noção foge aos princípios da ciência, visto que para cada teoria enunciada só pode haver um resultado final comprovado como o verídico. Mas no campo das mães isto muda. É verdade. Cada mãe é a melhor do mundo, aos olhos do filho. E que se lixe a ciência, a tecnologia ou mesmo os algoritmos matemáticos se não aprovam isto. Essa é a maior certeza da vida. Até porque quando se fala em vida fala-se, necessariamente, em mãe. O ser que dá vida. Gera vida. Faz vida.

Hoje, pela primeira vez, não vai ler este post antecipadamente. Vai vê-lo, quando der por ele. Não é uma homenagem. É só uma tentativa de a mostrar ao mundo que não merece. Sei que não vamos falar muito dele. Não precisamos de perder tempo com ele. Vai dizer-me que devia ter feito assim e assado, uma ou outra palavra diferente. Vai dar-me um abraço e depois vamos continuar a viver a única coisa que as mães vivem com os filhos, amor. 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s