Espreita Aqui

Andar com o vício no bolso

Existem alguns vídeos que mexem connosco. As palestras TED Talks têm sempre esse efeito. Pelo menos comigo. Não sei se é pela actualidade impactante dos temas, ou se é apenas pela forma como cada um de nós poderia perfeitamente parar 5 minutos na vida para pensar um pouco no mundo em que estamos.

Durante uma dessas palestras, a conceituada Sherry Turkle, expôs uma temática interessante – melhor dizendo, preocupante – sobre os efeitos da tecnologia nas diversas gerações. Nesta abordagem há uma ideia nuclear, essencialmente, alarmante: estamos a deixar a tecnologia levar-nos para sítios que não queremos ir. E essa é o melhor balanço que se pode fazer da palestra: seremos nós que estamos no controlo? 

De facto, tal como Turkle indica “os telemóveis que temos no bolso mudam não só o que fazemos, mas também o que somos”. Esta alteração identitária do próprio indivíduo vai ao encontro do que Sherry relata, pois são um crescente sintoma e não uma cura. A sua sensação de proximidade com o utilizador assegura-lhes o título de companhia.

Se virmos bem, isso dá-nos um certo conforto. É inegável, hoje em dia todos temos a possibilidade de nos afirmarmos digitalmente. Mesmo que seja apenas uma ilusão, sabemos que através de uma plataforma ou canal expusemos a nossa opinião para a restante comunidade. E mais… podemos fazê-lo da melhor forma porque aqui não entram as variáveis tempo e espaço, podemos retocar e editar como quisermos. Ter a capacidade de “limpar” os nossos erros e falibilidades é uma tarefa fácil e comoda, quando se está por trás de um iPad ou um outro monitor. No entanto esta manipulação de uma personalidade perfeita surge com um custo associado. A tecnologia vai “limpando” as relações humanos. Este conceito do “alone together” erradica o contacto directo, quebra a interação, e tal como diz a autora, rouba-nos a capacidade de auto reflexão e acrescento ainda a nossa personalidade, ou capacidade para ter uma. Até que ponto somos aquilo? Aquele post é verdadeiramente a ideologia ou personalidade do utilizador? É uma questão que fica em aberto! 

Embora tape as nossas vulnerabilidades, esta necessidade/crise do século XXI de estarmos permanentemente conectados – do partilho logo existe – insere-se (na minha opinião) no domínio  da literacia digital. A noção de, “digital and media literacy” é aquela que melhor designa o conjunto de life skills que são necessárias para uma plena participação numa sociedade saturada de media e rica em informação (Hobbs, 2010). O problema é que a grande fatia do bolo, a maioria da população está na base da cadeia alimentar. Deixa-se apenas ficar pela função básica de uso… E convenhamos… comprar um livro sem saber ler sempre foi uma tarefa muito difícil…

Talvez seja altura de falar de Dietas Digitais… ou pelo menos de algumas regras que nos permitam equilibrar esta dependência que é já um vício. E poderia ser com passos simples, como disse a palestrante, bastava começar por definir zonas em casa, nas quais a família estivesse verdadeiramente ligada, diretamente, e com interesse. Embora ache que já vamos tarde – e querendo ter a esperança de Sherry Turkle – ainda podemos provar o nosso valor e usar a tecnologia a nosso favor, de forma saudável e equilibrada.

Acho que é daqueles vídeos que merece o nosso tempo, ao telemóvel!

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