Crónicas

Guerra dos Peitos

Não há nada como um frango caseiro. Nada. Não pode haver comparação possível com este sabor tenro a carne que é criada com o milho da verdade. Talvez por ser de galinhas a sério. Talvez por ter sido confeccionado pela minha avó, que ainda pertencendo à velha guarda da cozinha regional e ataca forte nos temperos para comidas bem apuradas. Comidas do outro tempo. As que se comem e se fica cheio para o resto do dia. Enfim, aquelas comidas das avós.

Hoje foi frango estufado com ervilhas. Fê-lo ontem e como sabe que eu sou louco por ele lá me mandou um tachinho com a sua iguaria dos deuses. Santo cristo…. aquele molhinho carregado de azeite, até me faz crescer água na boca, só de relembrar o destapar da panela. Lá comi eu o frango, no meu feliz sossego solitário – e sim é mesmo feliz, pois ninguém imagina o quão produtiva é a hora de almoço, quando estou apenas eu. A cada garfada vem uma ideia nova. Vou apontando, organizando a vida e planeando a tarde. Só que hoje não deu. E de quem é a culpa?
Não, antes que digam, não é do frango. Apesar desse desgraçado ter sido de comer e chorar por mais. Não, foi da minha avó. A culpa é das pessoas. 

Deu-me na ideia começar a divagar. E quando penso, estrago tudo porque lá parei eu meia hora a remoer em coisas simples. E o caso até que é curioso. 

Já alguma vez pararam para pensar qual é a parte do frango que toda a gente (geralmente) mais aprecia? Então e nos jantares de grupo, quando se pede churrasco? Sendo em família, ou em amigos, o peito é sempre disputado. A cómoda frase do “eu quero o peito!” faz-se logo ouvir. É sempre assim. Mais tradicional e conservadora só mesmo a religião. Acho até que vivemos uma autêntica Guerra dos Peitos. 

Não venham cá com histórias que os meus amigos é que são maus, ou que a minha família não presta. Ok, algumas partes destas premissas até são justificáveis, mas todos temos saqueadores de peitos nos nossos nichos pessoais! 

E pensei nisto não pelo prisma da cobiça e da “ganância” gastronômica de cada um, mas apenas porque acho que é uma ação que reflete a convergência e similaridade do raciocínio humano. Prova disso é que só meia dúzia pede o pescoço ou a carcaça. Coxas e peitos são os mais cobiçados, na Black Friday da galinha.

Óbvio que todos queremos o melhor. É racional. Sabemos, perfeitamente, distinguir altruísmo de burrice, não me venham cá com tretas… mas se há coisa que me tira mesmo do sério são os chicos espertos. Aqueles que colhem logo o peito e as duas coxas. Todos temos esses espertinhos do grupo, que se acham suficientemente importantes para fanar as partes premium do bicho e deixar o resto para a plebe. 

3, 2, 1. Ok, já respirei. Não quero parecer um cão raivoso diante do osso, se não isto toma já aquele tom do Miguel que só dá porrada no mundo. No entanto, puxem lá pela cabeça e digam que não tenho razão! Pois… agora deve-vos estar a passar pela cabeça essa imagem. Todos nós já tivemos um momento desses. É normal. É como preferir o peito ao pescoço. É inato.

E isto não é, nem quero que seja, interpretado como uma crítica ou um recado. É só uma análise curiosa e digamos que até um pouco irrelevante de quem pensa sobre coisas, ao almoço. Aliás, que todos os problemas fossem assim, como a Guerra dos Peitos. Pelo menos hoje não tive nenhuma, comi sozinho. E que bem que me soube! 

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